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O Palhaço e o Meu Duplo
O Palhaço e o Meu Duplo
Clownrículo
Informações
“A criança é anterior ao
próprio homem pré-histórico.”

James Mark Baldwin

O Palhaço e o Meu Duplo

Já que vivemos em uma época em que o tempo, o espaço e as relações estão nos sendo sequestrados, é hora de resgatarmos os espíritos humanos; os desconhecidos e invisíveis espíritos humanos; os espíritos que constituem a nossa eminência. É hora de evocarmos essa genética esquecida ou não descoberta. Nesse caminho eu embarco, onde somente uma interface somática é possível e a comunicação se faz com olhares e sorrisos.

Cada passo à frente me faz enxergar um passo atrás, como se o palhaço me acompanhasse desde a infância. Esse vetor que me liga ao passado tende a se tornar mais nítido com o tempo. A proximidade do palhaço à infância é revelada não somente quando percebemos os aspectos de uma criança no trabalho do palhaço, já que isso é o mais aparente. Mas também quando vemos a criança como um ser cômico que possui, de antemão, o tempo, o ritmo, a disponibilidade e a espontaneidade que os palhaços tanto buscam para construir a sua técnica - ou revelá-la. A criança é o mais perto que podemos alcançar da “imagem e semelhança”. É a matéria-prima, é a nossa gênese.

Como estou falando de espíritos e genética - sendo os espíritos a correspondência metafísica para a química que rege o nosso corpo - nada melhor do que estabelecer a morada desse deus-palhaço, que em uma “gargalhada big-bang” deu origem ao nosso universo. E na alma de tudo, fez-se o riso. Talvez seja o riso a menor unidade do palhaço, ou pelo menos, é para ele que o palhaço existe. Intelectual, emocional, ou em forma de lágrimas, o riso está presente nas piadas com os amigos na mesa de bar, quando os pais perdem a idade ao brincarem com os filhos, ou naquela gargalhada gostosa quando gozamos. Ao conseguirmos identificar um palhaço, através da nossa risada, em qualquer lugar, seja no circo, no teatro, no cinema, na nossa família, na rua, já nos tornamos um deles. Então se dois inimigos puderem rir juntos da mesma piada, não existe motivo para serem inimigos, pois o riso comunga, contagia, torna as pessoas iguais. Todo ser humano está potencialmente conectado a isso. E ser palhaço, antes de mais nada, é reaprender a ser humano.

Algumas pessoas vivem em seu cotidiano como verdadeiros palhaços, apenas não se dão conta disso. São seres engraçados, por dentro e por fora. Estão por toda parte, independentemente do credo, cor ou classe. Só que existem pessoas que por razões quaisquer, por desígnio talvez, escolheram codificar essa comicidade, artificializá-la, torná-la arte, e por fim, ofício. Esse trabalho é realizado em um estado primitivo, no aqui e no agora, em um estado de sobrevivência, em que tudo é vital e novo; essencial e reinventado. É arriscando-se nesse mundo, que esse ser põe à prova a sua bravura e ingenuidade, onde ele inverte a lógica e subverte a expectativa. Vejo-o como um capturador de volatilidades que destaca o invisível do cotidiano e o transforma em magia; que tem sensibilidade para perceber o menor gesto, o olhar mais tímido; que consegue encontrar a comédia no vazio. Seu papel é aceitar a piada alheia, aceitar o próximo, aceitar o mundo como ele é, aceitar a si mesmo e seus próprios defeitos. Enfim, é à beira de um precipício que o palhaço dança e celebra o sacrifício do ego.

Walter J. Diehl/Nenusko

ACEITAÇÃO

"Uma imensa roda gira. Tempo. Vida. Deus. Sorte.
Muitos nomes para o que não se pode entender. Inomináveis destinos.
Inomináveis razões. O que nos falta é aceitar. Perder um pouquinho.
Deixar algo para alguém, em algum lugar. Deixar algo para alguém,
dentro de nós. Aceitar as cores, os cheiros, os sonhos, as loucuras.
Aceitar os erros, e principalmente, aceitar perder. Aceitar é dar espaço
para o possível. Não somente o meu possível, mas todo o possível.
Aceitar é abraçar. É ser abraçado. É o lugar ao lado. É enxergar.
A roda gira. Não vai parar."

W.J.D 29/11/2006